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'''''“y aquel fue el primer día que de todo en todo conoció y creyó ser caballero andante verdadero y no fantástico, viéndose tratar del mesmo modo que él había leído se trataban los tales caballeros en los pasados siglos.”''''' (II, 31)
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Os capítulos que se seguem são fundamentais para o desenvolvimento de um dos temas principais da segunda parte: o encantamento de Dulcineia. Até agora só DQ e Sancho tinham participado no assunto. Sancho enquanto autor da burla que tinha feito ao seu amo nas cercanias do Toboso, e DQ enquanto testemunha – ou também autor, segundo se quiser considerar – dos acontecimentos da cova de Montesinos. Mas agora a duquesa, em conversação “privada” com o escudeiro, saberá de estes acontecimentos recentes – ou seja dos quais ela não tinha lido – e a partir desta situação, Cervantes desenvolvera um inesperado relançamento do tema. Ao mesmo autor do engano, a duquesa fará acreditar que a burla não foi invenção sua, transformando todo o discurso de modo a afirmar que a tosca campesina era realmente a própria Dulcineia.
  
  
Chegamos assim com Dom Quixote e Sancho por primeira vez a um verdadeiro castelo. E da-se o paradoxo que aqueles que fazem sentir “pela primeira vez” cavaleiro andante a DQ são os mesmos que, sem ele perceber, lhe dão o papel de protagonista numa gigantesca farsa de si próprio.  
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Também neste capítulo Cervantes espalha o repertório linguístico e humorístico dos “voquiblos” de Sancho, os disparates dele e da dona acerca do rucio, uma serie de disparatados jogos de  palavras, e a já típica “espetada de refrães, ditados populares e frases feitas, por vezes tradicionais, por vezes  especificamente sanchopançescas. Note-se que o gozo que isto da duquesa não faz Senão reflectir o gosto do leitor meio da época. Cervantes põe em evidencia a rusticidade do falar de Sancho frente a uma personagem cuja classe social exigiria grande respeito e formalidade da parte dos seus inferiores.
  
  
A frase aqui citada em epígrafe foi, ao longo dos tempos, alvo de inúmeras interpretações sobre as verdadeiras crenças de DQ e o grau de loucura que teria realmente o fidalgo; pondo em causa o facto que, no fundo, ele visse realmente castelos nas estalagens.  
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Pense-se que segundo o Pinciano, autor da muito influente Philosophía antigua poética (1596), era impróprio que um lacaio pronunciasse a palabra “jarro” diante do rei, por ser esta demasiado prosaica. Imagine-se então o efeito que causaria ao leitor daquele tempo o passo no qual Sacho suplica a duquesa de se ocupar do seu burro.
  
  
Seja qual for a intenção do autor, ele não deixa de precisar em detalhe que o acolhimento preparado pelos duques é idêntico aos que eram feitos aos cavaleiros nos livros de cavalerias, o manto de finíssima escarlata e as águas de cheiro derramadas sobre DQ são os primeiros sinais do escrúpulo com o qual os duques denunciam a sua total falta de. (Desculpe-se-me não ter resistido à utilização do zeugma, tão cervantina e a propósito, e diga-se de passagem que a palavra escrúpulo, etimologicamente significa uma pedra no sapato.) Aliás, o discurso da diferença entre ''ofensa'' e ''afronta'' que faz DQ no capítulo 32 pode ser entendido em parte como uma reflexão do próprio Cervantes sobre a atitude inescrupulosa dos duques.
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Podemos também neste capítulo vislumbrar a grandeza do carácter de Sacnho, e isto prepara o que ser o Sancho governador. Trata-se da declaração de lealdade e carinho para com DQ a pesar de tê-lo por louco. A mistura de cobiça, cepticismo e fé ingénua que caracterizava a atitude de Sancho na primeira parte, foi trocada por um sentimento consciente de solidariedade, baseado no reconhecimento de tudo aquilo que os une, incluso o facto de compartir a mesma fortuna literária.  
  
  
O efeito que a recepção no palácio faz aos nossos cavaleiro e escudeiro é diametralmente oposto. Enquanto DQ “de todo em todo” acredita “ser cavaleiro andante verdadeiro e não fantástico”, Sancho, ao contrario, parece ficar perdido ou incomodado com o seu anonimato. E se damos por ele é pelo seu remorso de ter deixado só o jumento, o que dá lugar a um diálogo no qual a impertinência e a confusão dão lugar a todo um jogo humorístico que não exclui insultos e gestos obscenos. Mais à frente, ao recriminar Sancho pela sua reacção que ele pensa ser deliberada e não simplesmente inoportuna e descabida, DQ da sinais do seu medo de ser visto como um “charlatão ou um cavaleiro burlão”.  
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As farsas que encontramos a seguir, que continuarão durante ainda muitos capítulos não são só impressionantes espectáculos teatrais mas também imitam em muito as festas palacianas com torneios, fogos artificiais, mascaradas, comedias ao ar livre, batalhas fingidas, etc. Habituais na alta sociedade do renascimento e barroco e mito frequentes na península ibérica da época. Incluso as próprias figuras de Dom Qiuxote e Sancho Pança foram incorporadas a esse tipo de eventos pouco depois da publicação da primeira parte do Quixote.
  
  
DQ quer estar a altura das circunstâncias, e Sancho, mais à vontade, parece percebê-las, pelo menos algumas delas, como deixa em claro ao contar o conto da cabeceira da mesa. Durante o conto, enquanto DQ fica claramente incomodado pelas digressões e voltas que dá Sancho tentando que este acabe o conto o mais rapidamente possível, a duquesa, por sua parte, anima-o a contá-lo à sua maneira, tal vez como se tentasse promove  Sancho à posição de bufão da corte.
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A farsa que se seguira posta em acção por “Merlim” no capítulo 35 tratará do desencantamento de Dulcineia, mas a diferença das procissões e mascaradas das festas palacianas da época o método para obter o desencantamento são absurdos e do modo em estes serão negociados darão uma forma de poder a Sancho sobre o seu amo que só acabará muito perto do final da obra.
 
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O capelão de certo modo faz o mesmo, mas desde um ângulo totalmente oposto: o que ele reprova nos convidados é estes transformarem-se nos bufões ducais e através deles, na terrível diatribe com que arremete contra DQ, o que censura mais que nada é a atitude dos próprios duques. E a resposta do nosso herói merece capítulo aparte.
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DQ responde com uma vasta e retórica defesa da sua profissão, à qual mais à frente se virá a somar o protesto de Sancho, que por sua vez traz consigo o assunto pendente da promessa da ínsula, a qual, será prometida pelo duque. Tudo isto leva o eclesiástico a retirar-se, percebendo que “enquanto eles estiverem nesta casa, eu estarei na minha, e evitarei repreender aquilo a que não posso dar remédio”.
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Com a burla da lavagem das barbas o que fica em evidência é a participação activa do pessoal do palácio, que a partir de agora não sempre será movida pelas instruções recebidas. A seguir, a duquesa faz a pergunta que era de esperar: ''será Dulcineia uma dama fantástica engendrada pelo seu amante na sua imaginação?'' À pergunta - que introduz a burla que ocupará os capítulos 34 e 35, referente ao desencantamento de Dulcineia -, DQ responde com prudência de um modo que poderíamos descrever como pré-cartesiano, parecendo considerar a existência de Dulcineia como o resultado da sua perfeição; e que é nesta perfeição que reside a sua essência, independentemente de quaisquer existir.
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DQ assim, revela-se longe do mentecapto de que falava o capelão. O finíssimo retrato que faz de Sancho, que denuncia mais o “louco” renacentista que não o bufão profissional, dá-nos dele uma imagem que se enquadra dentro do preceito erasmiano de duvidar de tudo e tudo acreditar. A complexa honestidade de Sancho ver-se-à em cada uma das suas reacções aos últimos acontecimentos do capítulo: furioso e não resignado perante o ataque dos “pinches” de cozinha, modestamente agradecido perante a confirmação da ínsula. Podendo-se pensar até que Sancho já da sinais de vir a ser um excelente governador...
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Revisão das 20h47min de 13 de Novembro de 2013


Um projecto do São Luiz Teatro Municipal

comissariado por Alvaro García de Zúñiga, José Luis Ferreira & Teresa Albuquerque


Sessão 43 – Segunda 18 de Novembro de 2013 – Leitura dos capítulos 33 e 34 da Segunda Parte do Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de la Mancha.


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Comentário:


Os capítulos que se seguem são fundamentais para o desenvolvimento de um dos temas principais da segunda parte: o encantamento de Dulcineia. Até agora só DQ e Sancho tinham participado no assunto. Sancho enquanto autor da burla que tinha feito ao seu amo nas cercanias do Toboso, e DQ enquanto testemunha – ou também autor, segundo se quiser considerar – dos acontecimentos da cova de Montesinos. Mas agora a duquesa, em conversação “privada” com o escudeiro, saberá de estes acontecimentos recentes – ou seja dos quais ela não tinha lido – e a partir desta situação, Cervantes desenvolvera um inesperado relançamento do tema. Ao mesmo autor do engano, a duquesa fará acreditar que a burla não foi invenção sua, transformando todo o discurso de modo a afirmar que a tosca campesina era realmente a própria Dulcineia.


Também neste capítulo Cervantes espalha o repertório linguístico e humorístico dos “voquiblos” de Sancho, os disparates dele e da dona acerca do rucio, uma serie de disparatados jogos de palavras, e a já típica “espetada de refrães, ditados populares e frases feitas, por vezes tradicionais, por vezes especificamente sanchopançescas. Note-se que o gozo que isto da duquesa não faz Senão reflectir o gosto do leitor meio da época. Cervantes põe em evidencia a rusticidade do falar de Sancho frente a uma personagem cuja classe social exigiria grande respeito e formalidade da parte dos seus inferiores.


Pense-se que segundo o Pinciano, autor da muito influente Philosophía antigua poética (1596), era impróprio que um lacaio pronunciasse a palabra “jarro” diante do rei, por ser esta demasiado prosaica. Imagine-se então o efeito que causaria ao leitor daquele tempo o passo no qual Sacho suplica a duquesa de se ocupar do seu burro.


Podemos também neste capítulo vislumbrar a grandeza do carácter de Sacnho, e isto prepara o que ser o Sancho governador. Trata-se da declaração de lealdade e carinho para com DQ a pesar de tê-lo por louco. A mistura de cobiça, cepticismo e fé ingénua que caracterizava a atitude de Sancho na primeira parte, foi trocada por um sentimento consciente de solidariedade, baseado no reconhecimento de tudo aquilo que os une, incluso o facto de compartir a mesma fortuna literária.


As farsas que encontramos a seguir, que continuarão durante ainda muitos capítulos não são só impressionantes espectáculos teatrais mas também imitam em muito as festas palacianas com torneios, fogos artificiais, mascaradas, comedias ao ar livre, batalhas fingidas, etc. Habituais na alta sociedade do renascimento e barroco e mito frequentes na península ibérica da época. Incluso as próprias figuras de Dom Qiuxote e Sancho Pança foram incorporadas a esse tipo de eventos pouco depois da publicação da primeira parte do Quixote.


A farsa que se seguira posta em acção por “Merlim” no capítulo 35 tratará do desencantamento de Dulcineia, mas a diferença das procissões e mascaradas das festas palacianas da época o método para obter o desencantamento são absurdos e do modo em estes serão negociados darão uma forma de poder a Sancho sobre o seu amo que só acabará muito perto do final da obra.

AGZ



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