Um projecto do São Luiz Teatro Municipal

comissariado por Alvaro García de Zúñiga, José Luis Ferreira & Teresa Albuquerque


Sessão 38 – Terça 2 de Julho de 2013 – Leitura dos capítulos 22 e 23 da Segunda Parte do Ingenioso Cavaleiro Dom Quixote de la Mancha."



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Comentario aos capítulos 22 e 23 da Segunda Parte do Ingenioso Cavaleiro Dom Quixote de la Mancha."


O já anunciado episodio da cova de Montesinos é cuidadosamente preparado por Cervantes. Um primo de Basílio, personagem sem nome, será o guia de Dom Quixote e, no transito tratarão do tema do amor e da pobreza e os seus contrários, que nada pode calhar melhor entre as bodas de Camacho e que vai a acontecer na cova de Montesinos. O primo, não só grande leitor, é escritor, ou para dizer melhor compositor de livros para dar à estampa. E imprimiu, justamente, o Ovidio Espanhol e também o Suplemento a Virgílio Polidoro, Que Trata da Invenção das Coisas... A fértil imaginação de Dom Quixote metamorfosear, abrindo o jogo de personificações e referencias fluviais e diversas que em certo modo já preanunciam as aparições de Merlim e da senhora Dulcineia. As duas da tarde – e isto terá a sua importância – atado com cem braças de soga – pouco menos de 200 metros – e não sem antes encomendar-se à sua senhora Dulcineia, Dom Quixote empreende a descida. A alegoria da caverna foi utilizada como espaço mágico e visionário por todos os géneros literários, sem esquecer o teatro. No Quixote, Cervantes nos a faz ver como o lugar de sonho e de desengano referido a toda a literatura de perspectiva épica, mas remete também ao âmbito do processo de conhecimento que refere Platão na República, ligando-o ao da criação literária, já que é na mente de Dom Quixote, através do sonho, onde a cova e os seus habitantes ganham realidade. O sonho, desde Homero alias, tem duas caras: a da verdade e a da mentira. Nessa duplicidade Cervantes implica primeiro seus personagens, mas depois também a nos, leitores, já que a partir deste episodio não voltaremos a ler do mesmo modo aquilo que diz respeito aos assuntos da percepção. As quatro da tarde Dom Quixote começara a dar conta com exactidão e luxo de detalhes todo o referente a sua descida. Por primeira e última vez em toda a obra é personagem e narrador de uma historia da qual só temos o seu testemunho. Este ser recebido com credulidade por parte do primo e cepticismo por parte de Sancho. Mas tal vez mais importante ainda será a opinião de Cide Hamete, quem no começo do próximo capítulo dará o episodio por apócrifo...

Montesinos é um personagem pertencente ao ciclo carolíngio, mas que não existe na legenda francesa original. Casado com Rosaflorida, estes eram os senhores do castelo de Rocafrida, que de acordo com a tradição popular as ruínas de dito castelo situavam-se na Mancha, perto da cova que veio a chamar-se “de Montesinos” provavelmente por esta razão. Em algumas baladas Montesinos é o primo de Durandarte, e é nessa qualidade que ele aparece – e em mais de uma ocasião – no Quixote. Durandarte, por seu lado, é um herói. O seu nome deriva de Durendal, que era a espada de Rolando, mas que em Espanha transformou-se no nome do cavaleiro enamorado da bela Belerma, a quem tinha prometido enviar o seu coração caso fosse mortalmente ferido em batalha. Quando isto acontece, na batalha de Roncesvalles, é o seu primo, Montesinos, quem corta e leva o coração a Belerma. O ciclo carolíngio reune todas as canções de gesta e poemas épicos surgidos nos primórdios da literatura francesa ente os séculos XI e XII, que foram-se espalhando por toda Europa.


AGZ


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